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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Masturbação, pornografia e a história espiritual que ninguém quer ouvir

   



PORNOGRAFIA, MASTURBAÇÃO E A HISTÓRIA ESPIRITUAL QUE NINGUÉM QUER CONTAR.

(Mudaria o título para: “Pornografia, masturbação e a história espiritual que ninguém quer ouvir.”)

Ta aí. Falei. As palavras que não devem ser ditas.

Pornografia. Masturbação.

Esse é o nosso segredinho sujo. Não, esse é o nosso segredão sujo. 12% de todos os websites são pornográficos. 70% dos homens entre 18 e 24 anos admitem visitar sites pornográficos mensalmente. Os homens estão fazendo muitas visualizações.

E muitas masturbações.

Estou assumindo este artigo do ponto de vista espiritual. Não estou interessado em moral ou certo e errado aqui. Não estou dizendo que pornografia é boa ou má. Mas estou curioso – qual deve ser o efeito da pornografia e da masturbação na espiritualidade dos homens? Estou falando com homens aqui, então sim, mulheres podem sair agora.

Retomo isso daqui um instante. Minha colega, a professora de Yoga Deborah Williamson (sim, uma mulher), teve um insight sobre esta questão. Regularmente me reúno com ela e Stacy Dockins para dar treinamentos avançados de Vinyasa Yoga para professores. Lá, ela explica em uma linguagem simples um surpreendente princípio espiritual. Neste artigo vou aplicá-lo a masturbação e pornografia. Como a Deborah explica para nossos professores em treinamento em nossos eventos:

Quando você está ensinando e preocupado com a sua aparência, se as pessoas estão gostando de você, se perceberam aquele pequeno erro, se estão impressionadas com a sua espiritualidade – quando qualquer parte do que você ensina está focada em você – você está sendo ego-ísta.
Espiritualmente, quando você está agindo de modo egoísta – em outras palavras, preocupado consigo – você está em um estado de medo, contração, reação, encolhimento (sem trocadilhos), e julgamento. Vamos chamar este estado de ‘escuridão’. Uma maneira bem conhecida de sair deste estado é mudar seu foco de atenção para o dar, doar, compartilhar, pró-atividade, e estar para os outros. Vamos chamar isso de ‘luz’."

Tá certo! Mas o que isso tem a ver com sexo?

Isso indica fortemente que se os homens querem luz, eles canalizam todo pensamento ou ação sexual de receber para o doar.

Agora mesmo você deve estar lembrando de uma experiência sexual em que o foco estava no receber, mais especificamente , com o objetivo de você se livrar, fugir. Você deve se lembrar que depois desta experiência você sentiu uma queda na energia, ou até mesmo um sentimento de vazio ou desapontamento. Não falo só da perda de energia física que acompanha o orgasmo masculino, estou falando de uma decepção espiritual, profunda, um mergulho na escuridão. Até mesmo sentimentos vagos relacionados a culpa ou vergonha.

No Livro do Sexo da Kabbalah, Yehuda Berg explica que toda vez que nós ouvimos ou agimos de acordo com pensamentos egoístas, nós caímos na escuridão. No caso do sexo, nós experienciamos um breve flash de luz (o orgasmo), mas se o ato é feito a partir de motivações egoístas, uma queda na escuridão vem logo em seguida. Isso pode ocorrer após a masturbação, ou após relações sexuais que não aconteceram pelo princípio da doação, mas da apropriação, não tratarei de explicações detalhadas de Berg aqui, mas vou esboçar algumas das maneiras que ele recomenda aos homens para tornar o sexo, luz. Aliás, a luz tem seus benefícios. Na luz, não só sua vida e seu relacionamento começam a se resolver e a funcionar, mas Berg relata que, a medida que sua luz aumenta, sua experiência de felicidade pode ser 60 vezes mais intensa do que o seu melhor orgasmo.

O OPONENTE

Berg chama o ego de “o oponente”. Todos os seus pensamentos negativos ou egoístas provém do oponente. Eles são o teste do oponente. O modo como você responde a qualquer dos seus pensamentos negativos podem lhe trazem luz ou escuridão. Ele compara isso a um jogo.

Se você resiste aos seus pensamentos negativos, você traz luz da mesma maneira que o filamento de uma lâmpada resiste a corrente de energia com a finalidade de gerar luz. Isto é parecido com o modo como o espaço é preenchido pela luz do sol, mas nós não vemos isso até essa luz ser retida ou refletida pela nossa própria atmosfera.

É muito simples. Quando você resiste aos seus pensamentos egoístas, você gera luz. Se você não resiste aos seus pensamentos egoístas, nenhuma luz é revelada, e você permanece na escuridão.

O sexo que traz luz para um homem é uma prática sobre compartilhar e doar toda a sua energia sexual com sua parceira.

Algumas ideias sobre como os homens podem costruir energia sexual para suas parceiras e resistir a escuridão:

- Masturbação: masturbação não vai te cegar, mas Berg explica que para um homem isso resulta em escuridão espiritual. Resistir ao impulso da masturbação trará luz. E resistir ao ato trará mais energia sexual ao seu relacionamento. Você estará em um estado de preliminares o tempo todo. Viver em um estado de preliminares significa que você se torna automaticamente mais gentil e amável, e isso pode solucionar uma série de problemas idiotas em seu relacionamento.

- Pornografia: A pornografia no geral não se preocupa com o compartilhar. É egoísta, e isso traz escuridão. Resistir a pornografia traz luz e também traz sua parceira mais do eu nunca ao sexo iluminado.

- Flertar: Flertar com alguém que não sua parceira também não privilegia o compartilhar, o doar. É um estimulo ao ego de curto prazo que traz escuridão. Resistir ao impulso gera luz.

Como as mulheres compartilham? (Tudo bem, eu sei que vocês, mulheres, estão lendo isso também.)

Berg descreve a meneira que as mulheres compartilham de um jeito lindo. Ele diz que as mulheres produzem luz quando elas “recebem para doar”. Isso significa que elas se doam completamente quando elas recebem o prazer total do homem que está compartilhando, doando sua energia. Elas recebem completamente a fim de dar prazer a seu parceiro. Isso gera luz. Se a mulher recebe prazer só por receber (se o único intuito for receber e não doar), ela se sente vazia ou culpada depois. Isto é o que a escuridão de um ato egoísta produz.

SOA VERDADEIRO PARA MIM

Não sou nenhum expert em Kabbalah, mas reconheço um princípio espiritual perfeito quando o vejo. Tudo isso faz sentido para mim.

A Kabbalah é uma antiga parte mística do judaísmo que lê o Antigo Testamento como metáfora. Ainda que seja “velho”, tudo o que li a respeito me parece verdadeiro. E eu amo que o Berg tenha tido a ousadia de escrever sobre isso. E amo que a Kabbalah tenha tido a ancestral coragem de falar sobre isso, mas não sob a égide do moralismo.

Especialmente neste tema monumental, em que niguém quer falar sobre.



Sobre o ato de beijar:

Do livro de Berg:

“A respiração é um aspecto fundamental da alma de um individuo. Quando a respiração mistura-se com beijos apaixonados duas almas se unem. E não pode ser simples beijinhos. O ato de beijar deve ser quente, apaixonado e selvagem.”

FONTE: http://www.elephantjournal.com/2011/03/pornography-masturbation-the-spiritual-story-no-one-wants-to-tell/ Traduzido por Veridiana Delgado / Luz da Jurema.



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Xamanismo Havaiano - Técnica de proteção energética baseada no amor


 
"(...) o uso da luz branca reforça o medo ou até o piora. Isso acontece quando a ênfase maior é colocada na proteção e não na confiança."
Serge Kahili King
 

            “ Onde reina o medo aparece o conflito. Num mundo dominado por tanto medo não é surpresa que até apareçam técnicas metafísicas baseadas na defesa e no ataque. Talvez a mais comum encontrada no mundo seja ‘A luz branca da proteção’, como é frequentemente chamada. É um conceito lindo, porém sua aplicação deixa muito a desejar.

            Na sua forma mais simples, ela consiste em você imaginar-se cercado por uma luz branca ou clara que o protege de qualquer mal emanado do seu próprio espírito ou transmitido a você por um ser espiritual. Contaram-me que um dos meus alunos aplicou isso muito bem. Ele morava na cidade de Nova York nos anos sessenta e uma das suas amigas era uma adorável jovem senhora, que costumava usar apenas uma camiseta leve de algodão e andar pelas partes mais perigosas da cidade, livre como um pássaro. Tanto ele quanto outras pessoas tentaram avisá-la dos perigos, mas ela simplesmente sorriu e disse que sua luz a protegeria. Uma vez, por via das dúvidas, ele decidiu segui-la, e ficou estupefato ao ver homens mal-encarados na rua tratarem-na bem e com cortesia. A luz eliminou seu medo, e eles responderam à ausência de medo e à presença de amor.

            Frequentemente, no entanto, o uso da luz branca reforça o medo ou até o piora. Isso acontece quando a ênfase maior é colocada na proteção e não na confiança. Nesses casos, usa-se uma espécie de cerca ou barreira que apenas mantém a origem do medo longe e separada, não a elimina totalmente. De fato, cada vez que se faz isso, o medo é reforçado, e se cria o hábito de ter medo. Quando você põe uma luz branca de proteção à sua volta, em volta da sua família e seus amigos, sua casa e seu veículo, e acredita que tudo está sob controle, as coisas funcionarão de acordo. Mas quando você usa a mesma luz para focalizar que ela deverá protegê-lo, poderá se exaurir ao tornar a luz cada vez mais forte, e começará a atrair o que mais teme.

            Algumas vezes o pior e mais abominável uso da luz é ensinado por mestres metafísicos que só querem o bem, mas que estão muito impregnados pelo medo e não sabem o que fazem. Nesses casos, a luz é usada não apenas como blindagem de proteção, mas como refletor ou espelho para enviar a negatividade de volta à sua origem. Pode-se supor que qualquer negatividade que você sinta, foi enviada de propósito por uma pessoa mal-intencionada que merece receber de volta o que enviou. Apesar das batalhas psíquicas não serem impossíveis, são extremamente raras, porque poucas pessoas no mundo são espertas o suficiente para saber realmente como realizá-las, e estúpidas o suficiente para colocá-las em prática. (Lembre-se que o Ku¹ assume tudo pessoalmente). Nesse sistema, supõe-se que qualquer negatividade que você sentir será uma reação ao ambiente físico e espiritual, sem considerar se alguma pessoa em especial está irada com você ou lhe deseja mal. Usar a luz para enviar o mal à outra pessoa, mesmo quando você acha que está apenas refletindo o que acabou de receber, é utilizar-se de magia negra.

            A luz branca da proteção é mais útil como pronto-socorro de blindagem da mente, para alguém tão mergulhado no medo que nada consegue fazê-lo sentir-se seguro. “No entanto, tão logo se chega a um mínimo estado de confiança, é hora de ir adiante em direção a algo mais avançado e benéfico.”

A luz do amor de la´a kea
 

            La`a kea é uma palavra havaiana que significa ‘luz sagrada’, e se refere às coisas boas representadas pela luz do dia, como a luz solar, o conhecimento e a felicidade. Também é usada na prática xamã para designar uma aura plena de luz solar, conhecimento e felicidade. A técnica é similar à da luz branca descrita, exceto por ser usada para a cura e a harmonia. A fim de dar mais clareza a essa diferença, nós a chamaremos de luz do amor. Usando seu poder interno, utilize sua mente para se imaginar cercado pela luz do amor e pleno dela. Chamamos a isso de ‘acendendo a luz’. Não deixe a ênfase na luz aborrecê-lo. Você pode imaginar cores, sons e sentimentos, se preferir. Geralmente minha luz do amor está repleta de cores, símbolos, padrões, música e sensações suaves ou entorpecimentos, dependendo do efeito que pretendo criar naquele momento. Quando você acende a luz, também passa a ‘carregar a luz’, gerando uma emoção positiva. Uma simples apreciação de algo belo já produzirá isso ou uma emoção mais forte.

            A primeira constatação é de que a luz do amor existe. A segunda é de que ela se estenderá para o exterior ou vai se irradiar para qualquer área que você determinar. A terceira é de que ela seguirá suas instruções. Eis algumas sugestões para usá-la:

1.    Acenda a luz do amor todo início de dia e espalhe-a pelo seu ambiente mais próximo. Fale com a luz do amor (tudo está vivo, de prontidão e receptivo) e instrua-a, mentalmente ou em voz alta dizendo: ‘Harmonize-se com este local’.

2.    Use a luz do amor durante o dia com diferentes pessoas, locais, situações, da forma já descrita.

3.    Se você sentir alguma dor emocional ou física, acenda a luz do amor e diga: ‘Harmonize-se com as energias a minha volta’.

4.    Se você está tendo um relacionamento difícil com alguém, amplie a luz do amor para incluí-lo, não importa onde estiver, e diga: ‘Harmonize as energias entre nós’ ou ‘Harmonize nossos campos’.

5.    Se você quiser proteger sua família ou sua propriedade, imagine-os rodeados pela luz do amor e diga: ‘Mantenha essa pessoa, local ou coisa em paz ou harmonia’.

Que você abençoe todos com a luz do amor e seja abençoado por ela.”

1-    Equivalente próximo ao conceito ocidental de subconsciente, mas não é idêntico a ele.

KING,Serge Kahili.Xamã Urbano: um guia prático para aplicação do xamanismo havaiano.Traduzido por Inês A. Lobhauer. São Paulo: Centro de Estudos Vida & Consciência Editora.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

"O que é essa coisa estranha chamada amor?" por Krishnamurti





















O que é essa coisa estranha chamada amor? Todos falam sobre ele e escrevem a seu respeito; há poemas românticos, quadros e tudo o mais, o sexo e toda a confusão concomitante. E eu pergunto se tenho isso a que se dá o nome de amor, se existe amor.” (Krishnamurti)


O diálogo que se segue é um trecho de uma das muitas palestras que Krishnamurti, reconhecido mestre indiano, fez ao redor do mundo. Este trecho foi retirado do livro, Sobre o amor e a solidão, que aborda de maneira profunda e filosófica questões inerentes à condição humana, tais como: Haverá um caminho, ou o que devo fazer para me libertar do apego? Será que eu não me basto? Será que sou solitário, e estou fugindo dessa sensação de extraordinário isolamento por meio do apego a outra pessoa? Porque sou solitário?
Se te interessa, respire fundo, esteja na leitura, abre o coração e sinta o enorme prazer de ouvir um homem sábio.
Namastê!



Brockwood Park,
30 de Agosto de 1977
(...)
Questionador: Eu fico imaginando, senhor, o que será o amor.
Krishnamurti: Por favor, meu senhor, estou lhe perguntando muito respeitosamente se o senhor ama alguma pessoa. O senhor talvez ame o seu cão, mas o cão é seu escravo. Afora animais, edifícios, livros, poesias, bem como o amor ao país, o senhor ama alguém? Isso significa não exigir nada em troca, não pedir nada da pessoa a quem se ama, não depender em nada dessa pessoa. Porque, quando se é dependente, o medo, o ciúme, a ansiedade, o ódio e a raiva começam a aparecer. Se vocês estão apegados a alguém, isso é amor? Descubram! E se tudo isso não é amor – só estou perguntando, não estou dizendo que é ou não é -, como podem vocês ter compaixão? Estamos pedindo algo que é muito mais do que o amor quando nem sequer temos amor comum por outro ser humano.
Questionador: Como descobrir esse amor?
K: Eu não quero descobrir esse amor. Tudo o que quero é eliminar aquilo que não é amor, ficar livre do ciúme, do apego.
Q: Isso significa que não deveríamos ter nenhuma fragmentação.
K: Isso meu caro, é apenas teoria. Descubra se ama alguém. Como pode amar, se vive preocupado consigo mesmo, com seus problemas, suas ambições, seu desejo de sucesso, seu desejo de tantas coisas, sua atitude de se colocar em primeiro lugar, relegando o outro ao segundo? Ou pondo o outro em primeiro lugar e o senhor em segundo, o que é a mesma coisa.
               Fizemos muitas perguntas. Podemos sentar juntos e mergulhar na questão de se posso ser livre do apego, compreendendo, mesmo verbalmente, que o amor não pode existir quando há ciúme ou apego? Será que vou dialogar comigo mesmo, e vocês vão apenas ouvir?
               Percebo, ouvindo isso, que não amo. Isso é um fato. Não vou enganar a mim mesmo. Não vou fingir para minha mulher que a amo – ou para outra mulher, uma moça ou rapaz. Ora, em primeiro lugar, não sei o que é o amor. Mas sem dúvida sei que sou ciumento, que tenho um terrível apego a alguém e que, nesse apego, há medo, há ciúme, há ansiedade, há um sentido de dependência. Não gosto de depender, mas dependo porque me sinto solitário e porque sou maltratado pela sociedade, no escritório, na fábrica, e, quando chego em casa, quero ser confortado, ter companhia, fugir de mim mesmo. Por isso sou dependente dessa pessoa, apegado a ela. Ora, estou perguntando a mim mesmo como me libertar desse apego, sem saber o que é o amor. Não vou fingir que tenho o amor de Deus, o amor de Jesus, o amor de Krishna; jogo fora todo esse absurdo. Como proceder para me libertar desse apego? Estou tomando isso apenas como um exemplo.
               Não vou fugir disso, certo? Não sei o que vai ser minha vida com a minha mulher; quando eu estiver de fato desapegado dela, meu relacionamento com ela pode mudar. Ela poderá estar apegada a mim e eu desapegado dela, bem como de qualquer outra mulher. Vocês compreendem? Não é que eu me desapegue dela e me una a outra mulher; isso é tolice. E o que farei então? Não vou fugir das consequências de estar totalmente livre de todo apego, vou investigar. Não sei o que é o amor, mas vejo com muita clareza, com nitidez, sem nenhuma dúvida, que o apego a uma pessoa significa medo, ansiedade, ciúme, possessividade e assim por diante. Eis por que pergunto a mim mesmo como fazer para me libertar do apego. Não se trata de um método. Quero me livrar disso, mas realmente não sei como fazê-lo. Estou travando um diálogo comigo mesmo.
               Começo então a investigar. E fico preso a um sistema. Fico preso a algum guru que diz: “Vou ajudá-lo a ser desapegado; faça isso e aquilo; pratique isto e isto.” Quero me livrar do apego e aceito o que aquele homem tolo me diz porque percebo a importância de ser livre e ele me promete que, se fizer aquilo, serei recompensado. E quero ficar livre  a fim de conseguir essa recompensa. Vocês compreendem? Estou em busca de uma recompensa. E então vejo como sou tolo: quero ser livre e me apego à recompensa.
               Eu represento o resto da humanidade - estou falando sério – e, porque estou tendo um diálogo comigo mesmo, estou chorando. É uma paixão para mim.
               Não quero ser apegado, mas percebo que estou começando a me apegar a uma ideia. Ou seja: tenho de ser livre e o livro ou ideia de alguém diz “Faça isso e você terá aquilo”. Então, a recompensa passa a ser meu apego. E eu digo: “Olha só o que eu fiz. Tome cuidado, não caia nessa armadilha. Seja uma mulher ou uma ideia, ainda se trata de apego.” Aprendi que trocar o apego por outra coisa ainda é apego. Logo, agora eu estou muito atento. E digo a mim mesmo: “Haverá um caminho, ou o que devo fazer para me libertar do apego? Qual o meu propósito? Por que quero ficar livre do apego? Por ele ser doloroso? Por ter o desejo de alcançar um estado em que não haja apego, não haja medo e assim por diante?” Queiram, por favor, me acompanhar, porque estou representando vocês. Qual o meu propósito ao querer ser livre? De súbito, dou-me conta de que um propósito determina uma direção e que essa direção vai ditar a minha liberdade. Por que tenho um propósito? O que é um propósito? Um propósito é um movimento, a esperança de conseguir algo. Logo, meu propósito é o meu apego. O propósito tornou-se o meu apego; não só a mulher, a ideia de uma meta, como também o meu propósito: tenho de ter aquilo. Logo, estou sempre funcionando no campo do apego. Estou apegado à mulher, ao futuro e ao propósito. E digo: “Ó meu Deus, que coisa complexa! Não me dei conta de que ser livre do apego tivesse todas essas implicações!”.
                Ora, vejo tudo claro como um mapa: as cidades, as estradas vicinais, as estrada principais. E digo a mim mesmo: “É possível ficar livre do meu propósito, ao qual estou apegado, ficar livre da mulher á qual tenho grande apego, bem como da recompensa que penso que vou ter quando conseguir ser livre? Porque estou apegado a tudo isso? Será que eu não me basto? Será que sou extremamente solitário e quero escapar dessa extraordinária sensação de isolamento e, portanto, me apego a alguma coisa – a um homem, a uma mulher, a uma ideia, a um propósito? Será que sou solitário, e estou fugindo dessa sensação de extraordinário isolamento por meio do apego a outra pessoa?”
               Logo, não estou interessado em nenhum apego. Tenho interesse em compreender por que sou solitário, fato que me torna apegado. Sou solitário, essa solidão me obrigou a fugir por meio do apego a alguém ou a alguma coisa. Enquanto eu estiver solitário, essa é a sequência. Por isso, tenho de investigar por que sou solitário. O que significa ser solitário? Como isso acontece? A solidão é instintiva, inata, hereditária, ou o que a produz é a minha atividade diária?
               Questiono por que não aceito nada. Não aceito que a solidão seja uma coisa instintiva e que eu nada posso fazer com relação a isso. Não aceito que ela seja hereditária e que, portanto, a culpa não seja minha. Como não aceito nada dessas coisas, pergunto: “Por que existe essa solidão?” Pergunto e fico com a pergunta, sem tentar descobrir uma resposta. Perguntei a mim mesmo qual a origem dessa solidão; e estou observando. Não estou tentando descobrir uma resposta intelectual; não estou tentando dizer à solidão o que ela deve fazer ou o que ela é. Eu a observo atentamente para que ela me diga.
               Tem de haver uma observação atenta para que a solidão se revele. Ela não vai se revelar se eu fugir, se ficar assustado, se eu lhe resistir. Por isso eu a observo atentamente. Eu a observo de modo que nenhum pensamento interfira, porque isso é mais importante do que a entrada do pensamento em cena. Toda a minha energia está voltada para a observação dessa solidão; logo, o pensamento não entra em cena em momento algum. A mente está sendo desafiada e ela deve responder. Quando se é desafiado, surge uma crise. Numa crise, tem-se toda a energia, e esta permanece se não houver interferência. Trata-se de um desafio ao qual tem de ser dada uma resposta.
Q: Como podemos manter essa energia? Como fazer alguma coisa com relação a ela?
K: Ela apareceu. O senhor não entendeu coisa alguma.                                                                                 
               Veja bem, comecei por um diálogo comigo mesmo. Perguntei: “ O que é essa coisa estranha chamada amor?” Todos falam sobre ele e escrevem a seu respeito; há poemas românticos, quadros e tudo o mais, o sexo e toda a confusão concomitante. E eu pergunto se tenho isso a que se dá o nome de amor, se existe amor. Vejo que não existe amor quando há ciúme, ódio, medo. Logo, não trato mais do amor; trato do “que existe”, ou seja, do meu medo, do meu apego e do motivo pelo qual estou apegado. Eu disse que talvez uma das razões, e não a razão, seja o fato de eu ser solitário, desesperadamente solitário. Quanto mais velho fico, tanto maior meu isolamento. Assim, eu observo. É um desafio de descoberta e, por ser isso um desafio, toda a energia está presente para responder. É uma coisa simples, não? Quando há uma morte na família, estamos diante de um desafio. Se há um acidente, uma catástrofe, estamos diante de um desafio e dispomos de energia para enfrentá-lo. Ninguém se pergunta: “Onde se consegue essa energia?” Quando sua casa está em chamas, o senhor tem energia para se mover. Tem uma energia extraordinária. Não se senta e diz “Bem, tenho de conseguir essa energia”, e fica esperando. Se o fizer, a casa inteira vai ser destruída pelo fogo.
               Logo, há uma tremenda energia para responder à pergunta sobre o motivo da existência dessa solidão. Rejeitei ideias, suposições ou teorias de hereditariedade ou instinto. Todas essas coisas nada significam para mim. Interesso-me pelo “que existe”. Então, por que sou solitário – não eu -, por que existe essa solidão pela qual todo ser humano, se tiver alguma percepção, passa, superficial ou bem profundamente? Por que isso vem a existir? Será que a mente faz alguma coisa que gera a solidão? Vocês compreendem? Tendo rejeitado teorias, instintos, hereditariedade, estou perguntando se a mente gera isso.
               Estará a mente criando isso? Solidão significa isolamento total. Estará a mente, o cérebro, criando isso? A mente é, em parte, o movimento do pensamento. Estará o pensamento criando isso? Estará o pensamento, na vida diária, criando, gerando essa sensação de isolamento? Estarei me isolando por que quero ser melhor no escritório, tornar-me o principal executivo – ou o bispo ou o papa? O pensamento está agindo o tempo todo isolando a si mesmo. Vocês o estão observando atentamente?
Q: Creio que ele se isola tanto mais quanto mais estiver abarrotado.
K: Concordo.
Q: Como uma reação.
K: Sim, correto, senhor, correto. Quero falar disso. Vejo que o pensamento, a mente, está o tempo todo fazendo coisas para se tornar superior, maior, empenhando-se nesse isolamento.
                O problema então é: Por que o pensamento faz isso? Será da natureza do pensamento trabalhar em seu próprio benefício? Será da natureza do pensamento criar esse isolamento? Será a sociedade que cria esse isolamento? Será que a educação cria esse isolamento? A educação de fato ocasiona esse isolamento; ela nos prepara para uma carreira especializada. Descobri que o pensamento é a resposta do passado na forma de conhecimento, experiência e memória e por isso sei que o pensamento é limitado, que nos prende ao tempo. Assim, o pensamento está criando isso. Logo, a minha preocupação passa a ser de saber por que o pensamento faz isso. Será da sua natureza fazê-lo?

***